Da Catarina, noite
São 4 horas da manhã! Apenas não sabia como parar… a banda sonora era fenomenal!
Embalada pelo calor dos corpos das outras e outros que só pensavam em dançar, segui caminho pela noite fora…
Apartir daqui, agradeço que liguem a música que vos deixo. É a música que estou a ouvir… quero que sintam o mesmo.
BERLIN CALLING-Sky and Sand by Paul Kalkbrenner
São 4 horas da manhã e Lisboa ainda não adormeceu, Lux ao rubro e eu, eu aqui no meio – garanto-vos que aguento. Provei, e depois experimentei – foi a minha primeira vez, e sinto-me culpada pois não devia de me ter deixado influenciar, até porque tenho uma profissão nobre, penso eu – sou jornalista. Comigo está muita gente, muito são meus amigos, outros não e os que não são, vão passar a ser.
São 5 horas da manhã e ainda não parei – chamo-me Catarina – o DJ está a dar comigo em doida. A música ainda continua – demais.
O José – meu amigo – já telefonou… Encomendou mil euros. O pessoal vai para casa dele. À saída da discoteca há sempre pessoas mais bem dispostas – eu estou bem disposta – que querem continuar – eu quero continuar – e por isso acabam por acompanhar os amigos que por sua vez também convidam os amigos – eu convidei os meus amigos – e os amigos dos amigos. O meu amigo José é DJ…
São 6 horas da manhã – já vos disse que me chamo Catarina?
Do José, noite
Uii… ainda são 4 horas da manhã! Vou pôr esta gente completamente perdida…
Catarina, alinhas no meu after? Fala com o pessoal… Ela está completamente doida - experimentou hoje.
Vivo perto da Gulbenkian, sou um bon vivant – a minha mãe adora-me! Todos os sábados, organizo festas em minha casa! Sou feliz.
A Catarina é jornalista, conhecemo-nos aqui no Lux, ela veio com uma amigas, que vão todas para minha casa de manhã… fazer um after. O pessoal hoje está mesmo bem disposto. As minhas afters são uma continuação da noite, a grande diferença é que são em minha casa - adoro fazer festas, ponho música por mais 6 ou 7h.
Gostam do que estão a ouvir – mais um risco – é Paul Kalkbrenner… eu gosto, gosto muito! Sou DJ há muitos anos, tenho 32 e trabalho aqui há algum tempo, já toquei com os melhores do mundo, aqui, e adoro fazer festas… Vai toda a gente para minha casa depois.
São 6 horas da manhã - Vou telefonar a encomendar, todos dão 50€ e eu mando vir 1000€ - deve dar para todos não? Ok?
Da Catarina, dia
As festas em casa do José acabam por ser como se estivesses numa discoteca, ele tem todo o material para pôr música e às vezes até está mais de um DJ presente – os amigos dele. A festa realiza-se pelo dia dentro e ele tem sempre dois ingredientes obrigatórios: música e droga. A casa do José é enorme – até tem piscina… não é um mero local de consumo, é um local de culto, reúne todas as condições para prolongar a diversão. Sou jornalista, nem devia de cá estar. O ambiente pode ficar bizarro, até para mim que já dei um risco – experimentei.
O José encomendou mil euros. O traficante entra na casa alugada, no centro de Lisboa, e deixa mil euros em cocaína.
São 14h da tarde de sábado, quase todos consomem. Estamoso acordados há mais de 24 horas e queremos continuar em festa na melhor after hours privada da capital. Só me apetece rir. Só o Filipe, não quer, está deitado junto à piscina a conviver com duas russas e a apanhar sol – tomou ecstasy, os amigos dele dividem comunitariamente. Eu não quero…
Catarina, sou eu, e estou acordada há mais de 24h… Está a dar outra vez o Sky and Sand do Paul Kalkbrenner - o José adora esta música, as minhas amigas também – elas é que me trouxeram, fomos comprar uma garrafa de vodka para trazer para casa do José, são as regras: cada um traz boa vontade e uma garrafa, dá 50€ e alinha…
A festa está demais!
Já conheci muita gente. É exactamente esta miscelânea de personalidades que me atrai…
Na chamada "noite" vê-se todo o tipo de gente e tenho mesmo encontros imprevistos. A minha amiga Isabel, tem 28 anos, é muito famosa, escreve guiões de telenovelas, disse-me agora que encontrou uma colega de trabalho, "que é mãe e tem 40 e tal anos" na casa-de-banho – veio ao after do José – já bebeu muito, e estava um bocado decadente, disse a Isabel.
Entrou agora um actor conhecido das telenovelas a gritar…
Já são 18h… Assustei-me! “Quero Droooooooo-ga” dizia ele “Onde é que há droga?”, depois caiu redondo no chão. Lol O Filipe foi levá-lo ao Hospital. Que susto.
Está a ficar de noite, amanhã é que vai doer, é esse o lado duro desta diversão toda – as consequências físicas – o dia seguinte, na segunda já tenho que ir trabalhar, lá vou eu para a rotina. Vou chegar a casa já de noite, é normal que amanhã durma todo o dia – lá se vai o meu fim-de-semana. Sinto que não tive fim-de-semana.
A festa está demais!
Existe um preconceito em torno das after hours, mas a verdade é que não passa de uma continuação da noite. Não há nada que se faça a partir das seis da manhã que não se tenha começado a fazer muitas horas antes. São 18h… sábado… liberto-me!
O meu nome é Catarina, sou jornalista – vim a uma after…
A Catarina deixou de ir às afters há pouco tempo. Deixou de sair. Deixou de ser jornalista. Deixou de ser amiga do José. Deixou de consumir...
Sobrevive… viu o Berlin Calling e adormeceu. Continua a adorar Paul Kalkbrenner e Sky and Sand...
Este foi um primeiro ensaio. Pesquisa, escrita e remistura por Helder Barbedo
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